A VIDA É UMA PEÇA  (Fabeni) Solicite permissão ao autor para encena

Comédia

Cena 1  

Personagens : Durval, Célia, Mirna, Armando, Rose, Franco.

Cenário : Espelho, sofá  de 3 lugares, mesinha com jornais, revistas, mesa, cadeiras, estante com bebidas, toca discos, bolsa da Célia e bolsa da Rose com aparatos para maquiagem, um saco com rolos de papel higiênico.

Música : Romântica

Preparação : D e C se agarrando amorosamente, bolsa da C no sofá, jornais e revistas na mesinha.

Efeitos : Luzes apagadas, inicia uma música lenta, acender foco vermelho nos personagens.

 

C       (Risadinhas e dengos) Ai Dudu ! Cada dia que passa você fica mais tarado, o que foi, tá tomando viagra ?

D       Viagra é prá broxa, eu sou muito macho, você sabe disso.

C       Todo macho tem seu dia de broxa, vai dizer que sua carabina nunca negou fogo.

D       Prá dizer a verdade negou, mas  é porque aquela caça  não animava nem presidiário e eu já estava na segunda rodada. ...Agora você vai ver sua gostosa... (Começa bolinar a Célia)

C       (Rindo das cócegas) Pára, pára, pára eu sinto cócegas.

D       Com você eu viro a noite inteira e de manhã minha carabina ainda dá tiro de canhão.

C       (Rindo de cócegas) Pára, por favor, pára... (Com raiva e violenta dá uns tapas e se desvencilha de Dudu com um forte empurrão)

D       Porra ! Que foi isso ! Tá ficando louca ?

C       (Arrumando os cabelos) Eu não disse prá parar ? Você sabe que eu não suporto cócegas... e louca é a sua vó, neto de debilóide...

D       Tá bom, desculpe (Tenta abraçar Célia)

C       Não vem não, se você começar de novo e chuto o teu saco e acabo com os tuas futuras gerações.

D       Não, não, agora é sério. (Abraça Célia, ruídos amorosos até parênteses com o texto “Fim”, e começa dar uns amassos arrastando ela até o sofá, ficando ela sentada e ele ajoelhado)

C       Droga, meu vestido está ficando todo amassado.

D       (Tenta deitá-la e ficar sobre ela ao mesmo tempo que com uma das mãos iniciando pela canela dela, vai acariciado até a cocha arrastando junto a barra do vestido até a altura das calcinhas) ... vamos tirar êle vamos (Tenta tirar o vestido dela)

C       (“Fim”)

(Se desvencilha de Dudu, e se dirige para a frente do palco)

Nem pensar. Depois eu é que vou ficar toda amassada e você sabe, o pessoal está prá chegar, alem disso... estou noiva.... e o meu chifrudinho não pode me encontrar desse jeito.

D       Já pensou se ele descobre o apelido que você botou nele ?

C       Ah ! Que é isso, é só uma forma carinhosa de chamá-lo, mas quando a gente se casar vai ser bem diferente, ....vou chamá-lo só de Dinho.

D       (Volta ao ataque) Hummmm... você é tão cheirosinha, tão lisinha, tão... (Tocam a campainha).

C       Desliga essa merda de celular.

D       (Sobressaltado) Não é celular é a campainha.

C       (Apavorada) A luz, a luz, corre, acende a luz...

D       (Corre até dentro da coxia para acender as luzes)

(Toca novamente a campainha)

 Caramba, me descuidei das horas...

C       (Enquanto ele vai acender as luzes)

                   Se meu chifrudinho me pega aqui tô ferrada, adeus casa, comida, carrinho na porta e um barão por mês, vai logo, acende logo essa porcaria.

D       Estou tentando achar o interruptor. ....achei ! (Acender luzes)

C       (Dirige-se até o espelho)

         (Enquanto ele retorna, resmunga)

         Olha ! Eu tô uma meleca... meu cabelo, minha maquiagem, tô toda borrada.... e agora... o chifrudinho não pode  me encontrar aqui.

         (Toca novamente a campainha)

         Não deixa ninguém entrar, eu tenho que me esconder...

         (Desce na platéia procurando um lugar para se esconder, texto e ações improvisar de acordo com a situação, exemplo : Me esconde moço !)

D       Calma eu vou dar um jeito.

         (Dirige-se até a outra coxia e  grita)

         Calma, estou procurando as chaves,  e para de tocar essa merda.

M      (Somente a voz em tom nervoso e ligeiramente alterado)

         Era só o que faltava... (Gritando) Vai logo é uma emergência....

D       Volta aqui sua doida, depressa, saia pela porta dos fundos, a chave está na porta.

C       Você quer que eu me arrume na rua ?  Num retrovisor de carro ? ...nem pensar... perco o marido mas não perco a pose.

D       (Vai empurrando ela em direção a coxia)

         Cai fora, não vai pegar bem ...depressa...

C       (Se desvencilha dele)

         Cê qué que eu vá me arrumar na rua ????

         (Repicando umas 6 vezes  a campainha e batendo frenéticamente na porta)

M      (Gritando) Abre essa merda de porta, preciso ir ao banheiro, abre logo, pelo amor de Deus.

D       Se manda, eu vou abrir.

         Tá esquecendo o mais importante, tó (Pega a bolsa do sofá e joga para ela)

C       (Com dó dela mesmo) Me arrumar na rua, num retrovisor de carro... (Anda apressadamente até o espelho, arranca com violência da parede) ...essa porcaria vai comigo ...e vou largar lá fora...

         (Com dó dela mesmo) ...na frente de todo mundo..., que vergonha. (Vai se dirigindo à coxia)

D       (Antes dela chegar à coxia)

         Xuxúú !!!

C       Que foi seu animal.

         (Mais batidas na porta)

M      (Gritando) Eu vou arrombar essa porcaria.

D       (Gritando) Já encontrei a chave, estou indo...

D       (Zombeteiro) Cuidado prá não quebrar hem, dá 7 anos de azar...

C       (Irritada) Vai  te catá, se duvidar quebro essa porra na tua cabeça.

         (Entra na coxia)

D       (Dá uma gargalhada e resmunga)

         Bicho brabo sô !

C       (Irritadíssima entra apressadamente dois ou tres passos apenas e aponta o dedo para ele)

         Vai zombar da cara da tua mãe seu viado.

         (Volta para a coxia de onde fala condoída)

         Me arrumar na rua, na frente de todo mundo, que ridículo... e esse jumento ainda fica tirando sarro....

         (Gritando) ...você me paga. (Sai batendo a porta com violência)

D       (Rindo consigo mesmo vai abrir a porta, dentro da coxia oposta)

         (Ruído de porta abrindo e madeiras caindo)

M      Sai da frente, sai da frente...

                   (Atravessa o palco correndo e entra na outra coxia enquanto fala desesperada e com as mãos na barriga)

         Ai meu Deus, ai meu Deus está saindo, está saindo...

         (Som de abertura da porta do banheiro, e da tábua batendo na latrina)

        

         (Enquanto a Mirna atravessa o palco e se aloja no banheiro, rumores de cumprimentos dentro da coxia, tipo ôi, tudo bem, tudo legal, e você, etc.)

D       Vamos entrando minha gente.

         (Entram Armando e Rose)                                                     

         (Som de uma bela cagada com direito a peido e tudo)

M      (Suspirando aliviada) Aaaaahhhhh  ! ....que alívio.

R       Híííi !!!  Essa deve ter estourado o rabo.

A       Também, se entupiu de feijoada...

R       E com esse calor, já viu....

D       Vocês almoçaram aonde ?

R       Naquele breguinha por quilo ao lado da padaria Adélia.

D       É bom saber... eu que não como mais lá...

R       Não tem nada a ver, a Mirna que foi uma exagerada, parece que tem os olhos maior que a boca.

A       Já chegou todo mundo ?

D       Não, mas ainda é cedo, são 7:30 e nos marcamos às 8:00.

A       A gente ficou de apanhar a minha noiva Célia lá na casa dela e você sabe como ela é. Demora meia hora só prá se arrumar... o estranho é que ela não estava em casa; quando isso acontece eu já sei... deve ter ido ao dentista.... (Penalizado) ...coitadinha,  vive indo ao dentista, vira e mexe está com dor nos dentes.

D       (Olhando para a platéia com expressão facial de “se ele soubesse”)

         (Breve pausa, suspiro)  ...é, o jeito é esperar.

A       (aponta para o jornal da mesinha)

         É de hoje ?

R       (Senta-se no sofá e começa retocar a maquiagem)

D       Comprei hoje cedo,  mas ainda não tive tempo de ler.

         (Sarcástico) ...estava cuidando dos nossos interesses.   

R       Me dá o suplemento feminino.

A       (Pega o jornal, retira o suplemento feminino e entrega à Rose.)

R       Obrigada.

A       (Folheia o jornal em pé, andando de um lado para outro)

         (Mais ruídos de peidos e líquidos vindo do banheiro)

M      (Suspirando aliviada) Aaaahhhhh !

R       Que porca ! ....tá cagando e parece que tá gozando.

         (Toca a campainha)

         Deixa que eu atendo. (Vai à coxia, ruído de abertura de porta)

         (Fala alto) É a Célia. (Ruído de fechamento de porta, em seguida entram as duas em cena)

         Nossa, teu cabelo está uma meleca, ...e a boca então, desaprendeu a passar batom ? ....você andou na rua assim, toda amassada ???

C       (Olha com ódio para Durval, que encolhe os ombros e arreganha os beiços)

         (Aponta o dedo para Durval, faz menção de “rodar a baiana”, quando foi interrompida)

A       Que estupidez Rose, ...você não tem coração ?

         (Chama Célia) Vem cá meu docinho... , não liga prá ela não...

C       (Célia vai toda dengosa e amorosa para os braços de Armando)

         ...essa Rose é muito estúpida...né Armandinho ?

A       Esquece isso, meu amor.

         Eu poderia explicar a você Rose, mas faço questão que ela responda...

         (Fala baixinho para Rose)

         Quer apostar que ela foi ao dentista ?

         (Pergunta carinhosamente à Célia)

Porque você não estava em casa meu anjo ?

         (Olha para Rose e sussurra)

         Escuta só ...

C       (Dengosinha e agarradinha no Armando) É, é, é.....que eu tava com dorzinha de dente e....

A       ... e foi ao dentista, não é meu dengo ?

C       É meu chifru.... , (descobre a besteira que ia dizer)  ....meu docinho de coco.

A       (Dirigindo-se a Rose) Viu sua estúpida, desalmada....

         (Suspirando) ...coitadinha, toda vez que ela vai ao dentista volta deste jeito.

R       Desculpa, eu não sabia.

A       Já passou a dorzinha de dente meu xuxuzinho ?

C       Passou frufru. Já estou bem melhorzinha.

D       Já que está tudo bem, vamos trabalhar...

A       Eu queria aproveitar e discutir um assunto com você.

D       É relacionado à peça ?

A       Não, nada a ver.

D       Urgente ?

A       Não.

D       ...então depois a gente conversa, agora vou cuidar de uns detalhes.

         Vocês duas aproveitem para ensaiar..,.

A       E eu vou ver se consigo ler este jornal.

         (Folheia o jornal andando de um lado para outro)

        

         (Som de descarga de banheiro)

        

C       Me ajuda aqui Rose.

         (As duas sentam no sofá, pegam os textos que estão nas bolsas)

         Não consegui decorar bem algumas falas...

R       Quais ???

         Que folha ???

C       (Folheando o script)

A folha 8, (Quando ia continuar)

R       Puxa ! Mas essa é a sua primeira fala ! Como é que...(Interrompida)

C       A folha 9...

R       Fica olhando admirada, boqueaberta...

C       A folha 10, ....15, .......16

M      (Grita do banheiro)

         Ei, alguém aí...  (pausa)  ...aquí não tem papel higiênico

R       (Dá uma olhada em direção ao banheiro mas não toma nenhuma atitude)

Você é doida menina, faltando uma semana para a estreia você dá um furo desse ?

         Não decorou nada ?

C       Decorar eu até que decorei, mas...

R       Então ?

C       Acho que eu não decorei muito bem não....

M      Porra ! Não tem ninguém aí prá me trazer o maldito papel higiênico ?

C       (Se levanta mas não vai ao banheiro) Calma ! Já estou indo !

         Deixa eu ir lá senão essa cagona vai acordar toda a vizinhança.

         (Quando ameaça ir)

R       Se o Durval descobre você vai se ferrar...

C       (Volta rapidamente)

         Porque ?   ....não pode ?

R       Não pode o que menina ?

C       Levar papel higiênico prá ela...

R       Em que planeta você está menina ? Deixa de ser tapada...

         Estou falando da sua pisada na bola...

C       Ah ! Bom ! ...então eu posso levar o papel higiênico prá ela né ?

M      O que é que está havendo, foram fabricar o papel ?

R       (Irritada) Vai, vai, vai, vai..... leva logo prá ela.

C       (Vai prá dentro da coxia onde está o banheiro)

         (Ruído de abrir e fechar portas, gavetas, ruido de latas, etc.)

         Onde é que botaram esse papel higiênico ?

         (Grita) Peraí que eu estou procurando.

M      Se demorar muito vai secar, e aí não vai adiantar mais.

C       (Continua o barulho anterior)

         (Irritada) Droga, não achei....

         (Chamando) Durval.

D       Alguém me chamou ?

C       Onde é que você guarda o papel higiênico ?

D       Hííííi..... acabou e me esqueci de comprar.

C       E agora, o que é que eu faço ? A Mirna está precisando...

D       A coisa mais próxima de papel higiênico que temos aqui é jornal.

C       Jornal ?

D       Ou é jornal ou é o dedo, escolhe...

C       Essa agora !

         Mirna.

M      Ôi, (Ruido de abertura de porta)

         Ué ! Cadê o papel higiênico ?

C       Tenho uma surpresinha prá você.

(Entra em cena, arranca o jornal da mão do Armando e volta ao banheiro)

         Toma !

M      Você acha que eu vou ler jornal agora ?

         Preciso limpar o fiofó ! Cadê o papel ?

C       Taí, não tá vendo ?

M      Ah ! Não ! Quer dizer que não tem papel higiênico e eu vou ter que usar jornal ?

         Sonhou !

C       Ou o jornal, ou o dedo, você escolhe...

         E não usa muito que é o de hoje e eu ainda não lí. A propósito, é melhor eu me garantir,  passa prá cá uma  parte.

         (Volta para o sofá com uma parte do jornal, e o coloca sobre a mesinha)

M      Célia, vem aqui um pouquinho.

C       (Volta ao banheiro)  Que foi agora ?

M      Eu nunca usei esse troço, é muito grosso,  é liso e muito duro.

         Além do mais e essa tinta, como é que fica ?

C       Olha, preste atenção, vamos por etapas.

         Primeiro você amassa bem que ele fica mais macio, segundo você escolhe uma parte que não tenha muita tinta e terceiro vê se para de encher meu saco.

         (Volta para o sofa)

         Êta mulherzinha irritante.

M      (Ruido de jornal sendo amassado)

C       Onde é que a gente estava mesmo ?

R       Eu estive todo o tempo aqui e você é melhor sair do mundo da lua.

         (Continua ruido de jornal sendo amassado)

M      Droga !

         Se minhas mãos já estão dessa cor, imagine o fiofó como vai ficar.

         Essa gente adora comprar jornal vagabundo.

R       Vamos repassar, vamos...  ....vamos ver o tamanho do prejuízo.

         (Começam repassar o texto, falando baixinho uns 15 segundos)

        

         (Ruído de tábuas e latas)

M      (Entra furiosa com o jornal amassado na mão e joga no colo da Célia aquela bola de jornal)

         Toma !

C       Ai, que susto, mas o que é isso ?

M      (Furiosa) Ué, é o jornal de hoje, você não queria ler ?

Confere, vê se tá faltando alguma coisa além daquilo que você já tirou.

C       Desse jeito, todo amassado ?

M      A idéia foi sua... (Irritada) ....agora...(Pega o jornal do colo da Célia, amassa mais um pouquinho e joga na cara dela) ....se você não quiser ler, continua amassando prá usar quando for preciso.

         (Sai irritada para a coxia onde está o Duarte).

C       Nossa ! Que estupidez !

         (Toca a campainha)

R       Deve ser o Franco, deixa que eu atendo.

         (Na coxia da porta de entrada)

         (Ruído de abertura de fechamento de porta)

         (Ruído de beijinhos)

         Esconde isso, pelo amor de Deus.

F       Porque ?

R       Depois eu explico... faça o que digo, vai correndo esconder lá no armário.

F       (Atravessa correndo o palco levando um saco de papel higiênico, mas na passagem cumprimenta, de voz, a Célia)

         Ôi, Célia, tô com pressa, volto já...

C       Você viu Rose, o desespero do Franco ?

         Ainda bem que ele trouxe papel higiênico !

F       (Entra em cena cismado)

C       (Olha para o Franco admirada)

         Jáááá !

F       Já o que ?

C       Vai dar a descarga seu porco.

F       Eu não fui ao banheiro !

C       Não ? E porque é que você passou correndo por aqui com um saco cheio de papel higiênico ?

F       Porque ela mandou !

C       Você mandou Rose ?

R       Claro ! Depois de tudo que a Mirna passou se ela perceber que bastou sair do banheiro para chegar essa montanha de papel higiênico...

C       É mesmo né Rose. Você fez muito bem.

         ....agora  ....se ela te devolveu o jornal inteiro ...com o que é que ela limpou ?

R       (Mostrando o dedo médio e balançando e zombando)

         Vai ver que ela preferiu a segunda opção.

C       (Cara de nojo)

         O dedo ?

R       (Fazendo sim com a cabeça)

C       Ela que não me venha dar a mão...

F       Quem é que está bagunçando o meu cenário ?

         Cada vez fica mais difícil ser um contra-regras aqui nessa droga.

         (Dirige-se até o local onde estava o espelho, aponta para o local e pergunta cismado para os presentes)

         Cadê o espelho que estava aqui ?

        

         (Apagar as luzes)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cena 2

Personagens : Célia, Rose, Duarte.

Cenário : Sala da casa da Célia; mínimo necessário : dois almofadões, dois

textos,  três telefones  celulares, flores, sofá, mesinha com flores, duas bolsas. um espelho grande (pode ser de palpel alumínio), tudo para um café com bolachas.

Música : Nenhuma

Preparação : Célia e Rose sentadas nos almofadões, ensaiando o texto, bolsas sobre o sofá e celulares dentro das bolsas.

Efeitos : Acender luzes brancas, dia.

 

R       Não entendo como você não havia decorado seu texto. Você tem uma facilidade incrível.......perdemos o sábado e o domingo, mas  valeu a pena.

C       Nem sei como te agradecer, Rose. Você é uma amigassa...

R       O Armandinho me contou que o Duarte  fez questão ensaiar você... pessoalmente, e , inclusive, muito emocionado, confessou que estava  muito orgulhoso de você  ! E que não é qualquer um que tem a oportunidade de ensaiar com o diretor, um cara tão ocupado.... Imagine! Disse ele, coitadinha, ficou lá,.... trancada no teatro,.... duas semanas inteirinhas. 

C       Pois é, eu dei tudo o que tinha para dar e até aquilo que eu nunca pensei que ia agüentar dar...... você nem pode imaginar o quanto tive que engolir........mas.......tudo........ tudo pela arte.

R       E como é então que você não sabia quase nada ?

C       Acho que foi o Stress, mas o importante é que agora está tudo bem decoradinho.

R       Preciso contar ao Armandinho ...

C       (Desconfiada) Contar o quê ?

R       A loucura que foi o teu ensaio com o Duarte.

C       Eu já contei a ele.

R       E ele não falou nada ?

C       Não ! Tinha que falar alguma coisa ?

R       Acho que tinha.

C       Porque ?

R       Porque o Duarte prometeu que na próxima peça vai ensaiar o Armandinho... do jeitinho que ensaiou você, e Armandinho fez questão de frizar : Se a minha florzinha aguentou......eu também vou agüentar.

C                (Dirige-se à platéia zombeteira) Aquela carabina ?

(Mostra o tamanho para público)    ......duvido !

         (Levanta-se)

                   Aceita um cafezinho ?

R       Não precisa nem perguntar.

         (Entra na coxia)

C       (Levanta-se rapidamente pega o celular e faz uma ligação)

         (Apagar as luzes, um foco na Célia no canto esquerdo do palco, outro foco no Duarte no canto oposto)

D       Alô !

C       Alô teu cú ! Que história é essa de querer grampear o chifrudinho ?

D       Tá me achando com cara de grampeador, sua besta ?

C       Você sabe muito bem do que eu estou falando...

         ...quer dizer que pretende ter outra lua de mel né ?

D       Quer fazer o favor de explicar ? ...eu vou desligar essa merda...

C       Se desligar eu vou aí e te capo. Pensa que eu não sei que você prometeu ensaiar o chifrudinho na próxima peça do jeitinho que você me ensaiou?

D       Eu falei isso só prá ele parar de encher o meu saco e prá não desconfiar da gente, mas quando chegar a hora eu invento uma desculpa qualquer.

C       Você não seria capaz de sujar sua carabina no meu chifrudinho seria ?

D       Claro que não ! Além do mais, como poderia ? Você acaba com toda a minha munição !

C       Você vai ver, hoje a noite eu vou ficar ajoelhada e...(Interrompida)

R       (Entra subitamente com o café)

         Ficar ajoelhada prá que ?

C       Prá rezar, para o que mais poderia ser ?

R       Quem é que tá no telefone ?

C       O padre Augusto !

R       (Tenta pegar o telefone)

         Me dá aqui, eu também preciso falar com ele.

C       (Aperta um botão)

         Aaahhh ! Que droga ! Caiu a linha !

         Esse celular é uma porcaria, vive caindo a linha.

R       .....então liga de novo !

C       (Olha para o celular) Não vai dar.. ...acabou a bateria.

R       (Pega a bolsa e retira o celular) A minha carreguei ontem mesmo. Qual é mesmo o telefone da paróquia ?

C       Não adianta ligar, ele já estava de saída.

R       Que pena ! ...Mas não faz mal, amanhã eu falo com ele.

         Venha, vamos tomar café.

C                (Sentam para tomar café)

 Hummm ! Está uma delícia.

(Apagar luzes)

 

Cena 3

Personagens : Célia, Rose, Duarte, Franco, Mirna, Armando

Cenário O mesmo da Cena 1, cadeira de diretor.

Música : Mary

Preparação : Célia na coxia, Duarte, sentado na cadeira de diretor, em frente ao público, fora do palco, o resto do elenco misturado com o público em locais estratégicos.

Efeitos : Luzes vermelha e verde, clima de boate.

 

(Inicia a música Mary, interpretada por todos)

 

É nesse compasso que dança Mary

Mary dança no compasso

É nesse compasso que dança Mary

Mary dança no compasso

 

(Entra Célia dançando)

 

É nesse compasso que dança Mary

Mary dança no compasso

É nesse compasso que dança Mary

Mary dança no compasso

 

(De 2 a 4 bailarinhos dirigem-se, cantando até o palco)

 

É nesse compasso que dança Mary

Mary dança no compasso

É nesse compasso que dança Mary

Mary dança no compasso

 

(Sobem no palco, e executam a coreografia)

 

É nesse compasso que dança Mary

Mary dança no compasso

É nesse compasso que dança Mary

Mary dança no compasso.

Vamos ver a Mary dançar

Vamos ver a Mary dançar

Vamos ver a Mary dançar

Vamos ver a Mary

 

(Um dos bailarinos)

 

Quando a Mary dança

O meu corpo todo arrepia

 

(Outro bailarino)

 

Se a Mary balança

A tristeza vira alegria

 

(Todos)

 

Mary mora,

No coração da gente,

Mary mexe diferente,

Ela é toda alegria

Mary é nossa fantasia,

Mary devora corações...

 

Vamos ver a Mary dançar

Vamos ver a Mary dançar

Vamos ver a Mary dançar

Vamos ver a Mary...

 

Mary mora,

No coração da gente,

Mary mexe diferente,

Ela é toda alegria

Mary é nossa fantasia,

Mary devora corações...

Vamos ver a Mary dançar

Vamos ver a Mary dançar

Vamos ver a Mary dançar

Vamos ver a Mary...

 

É nesse compasso que dança Mary

Mary dança no compasso

(Os bailarinos entrando na coxia, enquanto Mary dirige-se à prateleira de onde apanha uma garrafa, um copo, coloca na mesa e começa a beber pensativa)

(Durante esse processo, penumbra com foco azul na mesa)

 

É nesse compasso que dança Mary

Mary dança no compasso

É nesse compasso que dança Mary

Mary dança no compasso

É nesse compasso que dança Mary

Mary dança no compasso.        

 

C       (Toma um copo cheio de vinho e logo enche outro e começa tomar)

         Eu sempre me cuidei.....

         (Toma o resto do vinho que está no copo e enche outro)

         ....como isso pôde acontecer .....bem comigo.....

Laboratórios clandestinos, remédios falsos.... .....e eu é quem pago o pato...

(Chorando) ....grávida. Meu Deus do céu, grávida....  eu, toda certinha, na flor da juventude... ...aquele salafrário nunca vai querer assumir essa criança... ...se souber que estou grávida.... (pausa) Grávida, grávida, grávida detesto essa palavra....   (Alisa e olha a barriga) ...Tá tão murchinha, (Com dó) nem acredito que vai parecer que engoli uma melancia....  E meus seios, então, ...vou parecer uma vaca leiteira ambulante.(Chora escandalosamente) (Pausa) Ele não vai querer mais saber de mim.

A       (Entra em cena)

         Mary !!! O que houve, está chorando ?

         Porque você está no escuro ??? Vou acender as luzes.

C       Não !! Deixa apagada !!!

A       (Senta-se ao lado dela)

         Bebendo, Mary ?

C       E daí, não posso ?

A       Calma ! Foi só uma pergunta !

C       Pergunta besta !

A       (Levanta, pega um copo e volta a sentar. Quando vai se servir, Mary tira o copo dele)

C       Eu não me lembro de ter te convidado.

         (Joga o copo longe, pega a garrafa e fica abraçada nela)

A       Mary ! Você viu o que fez ? Atirou o copo longe ! Qual o motivo de tanta estupidez ? Eu te fiz alguma coisa ?

C       Fez ! Fez muita coisa !

A       ....Mas o que é que eu fiz de errado ?

C       Fez muita coisa, já disse.

A       Mas o que ?

C       Acabou comigo, com a minha juventude, com tudo...

A       Eu fiz tudo isso ? ...não imagino como ?

         Você tá ficando doida ?

C       Doida ? Doida ? Doida você vai ver se não parar de me encher o saco. Esperimenta abrir a boca, só mais uma vez e você vai ver a doida.

         Jogo esse vinho na tua cara e quebro a garrafa na tua cabeça...

A       (Levanta-se rápido, fica mais distante).

         Não sei o que está se passando com você.... é melhor se acalmar.... a gente se fala depois.... (Saindo) ...eu hem ! Eu não te fiz bosta nenhuma....

C       Ahhh ! Seu filho da puta... não mandei você calar o bico (Levanta e joga a garrafa nele)

A       (Sai correndo) Tá louca mulher ? Para com isso ?

C       (Pega outra garrafa, volta para a mesa enche o copo)

         (Chorando) Bosta, ele teve coragem de chamar o filho dele de bosta....

         (Leva o copo até a boca, mas joga o conteúdo fora) Desse jeito vou embebedar meu filho.....   eu preciso me acalmar.....

 

(Acender todas as luzes)

 

Todos                  (Aplaudem, entram em cena e parabenizam Célia)

D       (Dá um beijo nela) Você foi fantástica...

        

         (Apagar luzes)

 

Cena 4

Personagens : Célia, Mirna, Franco, Armando, Duarte.

Cenário : Anterior, 4 velas, isqueiro, incenso, anel, macacões.

Música : Nenhuma

Preparação : Nenhuma

Efeitos : Luzes brancas acesas .

 

C       (Entra em Cena, acende 4 velas e um incenso, apaga as luzes e senta tipo yoga no meio do quadrado de velas, no meio do palco)

         Hummmm, uóóóóóáaaaa, auuuummmmm, sssssssssssssssssss

Hummmm, uóóóóóáaaaa, auuuummmmm, sssssssssssssssssss

Hummmm, uóóóóóáaaaa, auuuummmmm, sssssssssss, (soluço) ick !

Aquele vinho está fazendo efeito...

Hummmm, uóóóóóáaaaa, (Mirna entra em cena) auuuummmmm, sssssssssssssssssss

M      (Entra estabanada) Nossa ! Que perfume é esse ?

(Acende as luzes) Célia, o que você está fazendo aí no chão no meio dessas velas ? Tá rezando ?

C       (Falando entre os dentes) Eu estava tentando me acalmar, mas já ví que aqui vai ser impossível. Quer fazer o favor de cair fora e apagar essa luz. Não está vendo que eu estou me concentrando ! Estou fazendo yoga!

M      Desculpe ! Como é que eu ia adivinhar, tava tudo escuro !

         Yoga, ai que legal ! Você não vai se incomodar se eu também fizer né ? Eu ando tão nervosa...

C       Tá, tá, tá mas apaga logo esta luz...

M      Apaga a luz e senta-se ao lado da Célia.

C       Hummmm, uóóóóóáaaaa, auuuummmmm, sssssssssssssssssss

C,M   Hummmm, uóóóóóáaaaa, auuuummmmm, sssssssssssssssssss

C       (Soluço) Ick !

M      (Olha desconfiada)

C,M   Hummmm, uóóóóóáaaaa, auuuummmmm, sssssssssssssssssss

M      (Imitando um soluço) Ick !

C       (Olha para Mirna)

         Você também está com soluço Mirna ?

M      Soluço ? Eu não ?

C       E esse Ick, por acaso não foi um soluço ?

M      Uééé ! Eu pensei que fizesse parte do exercício...

C       (Balança a cabeça em desaprovação)

 

         (Apagar todas as luzes)

 

C,M   Hummmm, uóóóóóáaaaa, auuuummmmm, sssssssssssssssssss

C       (Soluço) Ick !

M      Saúde !

C       Saúde é prá espirro sua burra !

M      Ah ! É ! Desculpe !

C       Cala a boca Mirna !

M      Estúpida !

C       Silêncio !

C,M   Hummmm, uóóóóóáaaaa, auuuummmmm, sssssssssssssssssss

         (Ambas soluçando) Ick !

M      Droga, peguei soluço de voce. Ick !

C       Só me Ick ! faltava esssa Ick !

M      Ick !

F       Não tem luz, não ? Querem tacar fogo no teatro ?

         (Recolhe as velas e o incenso e leva prá coxia e acende todas as luzes brancas)

C,M   (Seguem Franco)

C       (Nervosa e chateada) ....hoje não é o meu dia..... Franco, quer fazer o favor de devolver minhas coisas .....

F       (Todos na coxia)

         Toma, mas se acender de novo eu jogo no lixo.

D, F   (Entram em cena)

D       Franco, prepare logo o cenário.

         (Penumbra, foco azul no Duarte que caminha por entre a platéia).

F       (Desmonta todo o cenário e monta um cenário de um sofá, uma vitrola, flores sobre uma mesinha ao lado do sofá, uma caixinha com anel)

D       (Caminhando e pensando consigo mesmo)

                            Não foi fácil chegar até aqui. A escola de teatro, as noites em claro interpretando para o espelho....e todas os dias, cansado, enfrentando durante 9 horas a linha de montagem de eletrodomésticos. Enquanto montava as peças no liquidificador, na batedeira ou no ventilador, todo o tempo, meus pensamentos eram voltados ao meu sonho.....ser um ator. Nada me escapava....sondava o bêbado que se amparava nos muros das casas, o homem gordo com seu andar difícil e respiração ofegante, o jeito displicente dos efeminados....nada me escapava.

                            Ser ator é ter o privilégio de viver muitas vidas, é viver...e sentir tristezas e alegrias, cansaço, prostração, euforia, é ser homem, mulher, homossexual, criança, velho,......até animal !! .....neste solo sagrado (referindo-se ao palco) o ator pode ser até Deus !!!

                            O teatro imita a vida...... “A vida é uma peça” em que todos somos atores dirigidos por Deus.

F       O cenário está pronto patrão.

D       Chame a Célia e o Armando. Prepara o clima....

F       (Entra na coxia)

C,A   (Entram em cena)

D       Franco ! Pode soltar a música. (Senta-se na cadeira de diretor)

         (Música romântica)

C                (Entra na coxia da esquerda)

A       (Entra na coxia da direita e em seguida entra em cena)

         Ela está demorando,  ....só falta me dar o cano. Será que a desculpa não colou ?

         Já tive mulheres aos montes, mas essa é a mulher da minha vida. Só penso nela, todo o resto não tem mais importância.

         Ela é tão linda e fogosa ! Vai ter que ser só minha, minha e de mais ninguém....

         (Luzes apagam, Mary à esquerda do palco com foco azul, Francisco à direita, com foco vermelho, um casal dançando  “Vontade louca”)

        

         Teus cabelos lindos,

         Teus lindos olhos,

         Tua linda boca

         Me dão uma vontade louca...

         Teus cabelos lindos

         Teus lindos olhos

         Tua linda boca

         Me dão uma vontade louca...

         ....de te beijar,

         De me enrolar nestes teus cabelos,

         Ter você do lado quando acordar....

         Teu corpinho lindo,       

         Teus lindos seios,

         Tuas lindas cochas,

         Me dão uma vontade louca...

         Teu corpinho lindo,       

         Teus lindos seios,

         Tuas lindas cochas,

         Me dão uma vontade louca...

         De te amar,

         De me enfiar entre as tuas pernas,

         Ter você do lado quando acordar...

         Tardes de outono, céu vermelho de paixão,

         Muito a vontade minha vida então seguia,

         Mas essa menina conquistou meu coração,

         Que não tem paz,

         Porque amou demais...

         Tardes de outono, céu vermelho de paixão,

         Muito a vontade minha vida então seguia,

         Mas essa menina conquistou meu coração,

         Que não tem paz,

         Porque amou demais...

         Céu azul, lua prata,

         Foi você, linda gata,

         Quem tomou,

         Tomou conta do meu coração...

         Quero ser teu benzinho,

         Te encher de carinhos,

         Tudo, tudo aquilo que quizer,

         Eu te darei de coração....

         Céu azul, lua prata,

         Foi você, linda gata,

         Quem tomou,

         Tomou conta do meu coração...

         Quero ser teu benzinho,

         Te encher de carinhos,

         Tudo, tudo aquilo que quizer,

         Eu te darei de coração....

         (Saem os bailarinos, apagam as luzes, Mary na coxia, Francisco continua no palco)

C       (Toca a campainha)

A       (Dirige-se à coxia direita, som de abertura e fechamento de porta)

         Mary, graças a Deus você chegou....

C       Eu vim o mais rápido possível...., você não acha melhor ir ao médico ?

A       Já está passando....

C       É melhor ir ao médico, já pensou se você tiver uma recaída ? Aproveita que o carro está na porta, (Puxa ele pelo braço) vamos eu te levo.

A       Não, já estou bem....tomei um remédio para o fígado, já está fazendo efeito...

C       Nossa Francisco ! Desta vez você me assustou mesmo ! Passei dois sinais vermelhos, nem sei se fui multada por excesso de velocidade....

A       Não pensei que você se importasse tanto comigo...

C       O maior cego é aquele que não quer ver.

A       (Abraça e beija Mary) Acho que estou me apaixonando....

C       Uééé ! Já sarou ?

A       (Escorrega as mãos pelas costas até a bunda de Mary)

C       Pára com isso !

         Já ví que você não está doente coisíssima nenhuma !

A       Prá dizer a verdade, não estou mesmo.

C       Que safado ! Me fez vir correndo até aqui...

A       (Tapa a boca de Mary)

         Fiz, e daí, queria te ver. Você anda muito nervosa, me evitando, atirando coisas na minha cara, dizendo que eu fiz não sei o que !

         (Abraça Mary, beijando o pescoço e escorregando as mão das costas até as nádegas)

C       (Se afasta dele) Tira as mãos daí seu safado ! Você só quer se aproveitar de mim !

A       (Mesmo com a resistência de Mary, consegue abraçá-la)

         Aproveitar de você ? E você também não se aproveita de mim ?

C       ....mas é diferente, você é homem.....

A       Mulheres, vivem pregando igualdade mas fazem questão de vestir a camisa de vítimas indefesas...            ...quando ficam grávidas, então, minha nossa ! ...o culpado sempre é o homem ! ....esquecem que essas coisas são feitas a dois ....não se previnem, ....não tomam anticoncepcionais....

C       Eu tomei, seu estúpido. (Golpeia com os dois punhos o peito de F)

A       Calma, calma, eu não te fiz vir aqui prá brigar....

C       (Chorando) Eu não tenho culpa se esses laboratórios aprontam.

A       (Acaricia Mary) Fique calma meu anjo.... você está muito nervosa, não está falando coisa com coisa. (Segura os dois braços de Mary) Fique aqui, ...não saia daqui. (Coloca uma música na vitrola e canta dançando com Mary  “Tome uma colher de mim”).

        

         Prá que tanto sofrimento

         Tome uma colher de mim

         A vida não é feita de lamentos

         Felicidade existe sim.

         Prá que tanto sofrimento

         Tome uma colher de mim

         A vida não é feita de lamentos

         Felicidade existe sim.

         Ondas do mar, o teu corpo ardente,

         É o sonho de qualquer homem carente.

         Olhar prá você, pro branco dos dentes,

         O teu desfilar me deixa contente.

         Eu quero ver você novamente

         Sorrindo feliz, vai ser um presente

         Eu tenho um remédio

E se chama amor,

         Basta um pouquinho acaba com qualquer dor...

         Tome uma colher de mim,

         Tome uma colher de mim,

         Tome sim....

         Tome uma colher,

         Só uma colher,

         Tome uma colher de mim....

         Tome uma colher de mim,

         Tome uma colher de mim,

         Tome sim....

         Tome uma colher,

         Só uma colher,

         Tome uma colher de mim....

 

         (Se beijam, olham para o Duarte)

 

C       A cena final também ?

D       (Batendo palmas) Não é necessário, vocês foram ótimos, podem descansar.

 

(Apagar as luzes)

 

Cena 5

Personagens : Célia, Mirna, Franco, Armando, Duarte.

Cenário :  Sofá e duas mesinhas ao lado do sofá, mesa principal, sem cadeiras.

Música : Nenhuma

Preparação : Nenhuma

Efeitos : Luzes brancas acesas .

 

M,A   (Vindos da rua, som de porta abrindo e fechando)

M      Esqueceram a porta aberta, aposto que foi o Franco.

A       (Segurando um copo com óleo de rícino, coloca sobre a mesinha do lado direito do sofá)

Esse óleo de rícino, vou deixar aqui, me lembra na hora de sair. Vou ver se arranjo uma garrafinha para colocar dentro senão vai derramar.

M      Prá que é que você usa isso ? Sabia que isso é purgante ?

A       É para pulverizar em baixo do carro, não tem coisa melhor. O meu amigo do posto foi quem me deu.

         (Ambos entram na coxia)

F       (Entra em cena trazendo um espelho)

         (Colocando o espelho no lugar) Ainda bem que a Rose trouxe esse espelho, é bem maior do que o outro, .....daquele que sumiu....

         (Colocando as cadeiras no lugar) Pronto. Tá legal !

         (Dá uma olhadinha de longe) Perfeito !

         (Monta o cenário : Revistas sobre as mesinhas, jornais

         Tá faltando o que ? .......bebidas. Bebidas, bebidinhas. (Coloca os copos na prateleira e quando vai colocar a segunda garrafa, olha para os lados, tira a rôlha, dá uma golada e larga a garrafa em cima da mesa)

         Hummmm !!! Que delícia, é vinho do bom ! Duarte não está economizando. ....e pensar que durante a peça eles vão beber kisuco. A garrafa é igualzinha, mas dentro é kisuco.... Vou buscar ! (Trás duas garrafas de kisuco coloca no chão, junto a parede. Pega a garrafa de vinho e dá outra golada, esquecendo as garrafas de kisuco no chão)

                   Beleza ! (Leva a garrafa a altura dos olhos, checa o nível)

                   Ninguém vai perceber ! Tá quase cheia....

         (Vai buscar a vitrola e coloca no lugar, pega a garrafa de cima da mesa para guardar, coloca na prateleira, mas não resiste e toma outra golada)

         (Leva a garrafa a altura dos olhos, checa o nível) Caramba !!!! Acho que desta vez exagerei na golada... (Enxuga a boca na manga da camisa, percebe o copo de óleo de rícino na mesinha, pega o copo e despeja dentro da garrafa) ....vai ficar um pouco aguado, e daí, ....azar de quem beber. (Coloca a garrafa de volta na prateleira).

D       (Entra em cena)

         Está tudo em ordem ?

F       Tudo em ordem patrão... acabei agorinha mesmo.

D       É melhor colocar o espelho do outro lado, é muito grande...

F       Esse espelho foi a Rose que trouxe. O outro não consigo encontrar; eu tinha certeza que tinha colocado aqui...

D       (Sorrindo) Espelho é espelho, este está bom.

         Calor não ? Tá afim de uma gelada ? Eu pago !

F       Vamos !

         (Saem as dois)

CeR   (Entram conversando e sentam no sofá)

R       Tá nervosa ?

C       Um pouco, ....dia de estreia, mas engraçado, quando piso no palco....me acalmo rapidamente. Com você também é assim ?

R       Eu sempre tomo um traguinho antes.....ajuda bastante.

A       (Entra com uma garrafinha plástica na mão e se dirige para a mesinha onde deixara o copo com óleo de rícino)

         (Dirige-se às duas) ....êi ....vocês não viram um copo que estava aqui ?

R       Copo ? (Olha para onde ele apontou) ....eu não vi copo nenhum. (Olha para a Célia) Você víu ?

C       Eu sei lá de copo...

A       (Procura ao redor e pragueja) ...o copo, cadê o copo, mania que vocês tem de mexer nas coisas dos outros.

CeR   (Unissonas) Vocês uma ova.

R       Esse cara está ficando doido, imagine, todo esse escarcel só por causa de um copo. Tem tantos copos lá na copa e você vem procurar logo aqui.

A       É, mas eu queria o meu copo... o que estava nesta mesinha......droga !

C       Eu não peguei.

R       Nem eu !

C       (Falando com Rose) Cruzes ! Vai ver que ele fez uma marquinha no copo, ele deve ter nojo da gente.... (Continuam conversando enquanto Armando se dirige para a frente do palco)

A       (Dirige-se, até a frente do palco) Só me faltava essa... Eu tenho que achar o copo e colocar nesse vidrinho...

R       Que doidice é essa Armando, você  quer colocar um copo dentro desse vidrinho ?

A       O copo não, o que tem dentro dele espertinha. Óleo de rícino...

C       Óleo de rícino ? Esse troço não é para (Com as duas mãos balança a barriga), você sabe né ? ...desentupir o ralinho ?

A       Pro seu governo, eu  uso óleo de rícino para borrifar por baixo do...(Interrompido)

R       (Dá uma baita gargalhada) Borrifar ? Por baixo ? (Gargalhada) Como as coisas mudam, no meu tempo era pra tomar de colherada ! Não é Célia?

C       E eu sou lá do seu tempo ? Sei nada disso não !

A       Não sei porque ainda estou escutando essa merda. (Nervoso e falando alto) ....eu só quero saber quem foi o desgraçado que pegou meu copo.

D       Que gritaria é essa ? Você perdeu um copo ?

A       (Nervoso) Não perdi nada ! Esquece !

CeR   (Fazendo mímica para o Duarte, imitando dor de barriga) Óleo de rícino.....purgante !

D       (Põe a mão sobre o ombro do Armando) Eu bem que notei que você anda meio amarelado, mas é bobagem você se envergonhar de uma coisa dessas.

A       Envergonhar do que ?

D       (Pondo as mãos na barriga e mexendo) Você sabe ! ....então ?

A       ....então o que ?

D       (Leva o Armando para um canto em frente ao palco) Vou te confessar uma coisa.... eu mesmo, certa vez, tive que fazer agachado, não tinha outro jeito de sair,......e olha que já havia colocado dois supositórios....

A       Mas de que raios você está falando ? (Sai apressado) Vocês estão ficando todos doidos.

D       Peraí, onde é que você vai ?

A       Ao banheiro,  ...(nervoso)  ...dá licença !

D       Ahhh !!  Tá bom, vai depressa. Boa sorte ! Agacha que eu tenho certeza que desta vez você vai conseguir....

A       (Nervoso entrando na coxia) Ahhhh !!!  Vai acabar me dando um troço !

R       Nossa ! Coitado ! Está desesperado mesmo. (Levanta) Me ajudem a procurar o purgante, depressa ! (Todos procuram, apagar as luzes).

Cena 6

Personagens : Célia, Mirna, Franco, Armando, Duarte.

Cenário : Continuação mais um cesto de lixo, um anteparo transparente sugerindo a coxia com prateleira, cadeira e toca discos.

Música : Nenhuma

Preparação : Nenhuma

Efeitos : Luzes brancas acesas .

        

(Entram Duarte, Célia e Armando, vindos da coxia)

 

D       Faltou um pouquinho de autenticidade. Você (Dirigindo-se para Célia) tem que ser mais autêntica, aliás faltou isso para os dois. Nós já ensaiamos centenas de vezes, vocês já fizeram melhor ....e hoje a noite vai ser prá valer.....aproveitem enquanto podem errar.

C       Vamos Armando, vamos começar. Já que o Franco não está eu mesma toco a campainha. Você já sabe né : Mary, graças a Deus, etc., etc. (Dirige-se à coxia onde está a porta de entrada)

A                Pode deixar, vamos arrebentar. Aperte a campainha a hora que quizer.

         (Toca a campainha)

                   (Dirige-se a coxia para atender e já vai falando) Mary, graças a Deus vo... (Interrompido pela entrada de Franco)

F       (Entra com uma garrafa enrolada num papel, um pouco embriagado) Tá

         cego cara ? (Atravessa o palco e vai até a coxia transparente)

C       (Entra) Ele passou a minha frente ! Vamos começar de novo.

         (Volta para a coxia e toca novamente a campainha)

A       (Vai atender) Mary graças a ... (Interrompido por Franco).

F       Se for cobrador diga que não estou.

A       (Dirige-se até onde está Franco)

         A gente está ensaiando Franco, quer calar essa matraca.

         Célia .....(bufando) por favor, .....começa de novo.

C       (Volta para a coxia e toca novamente a campainha)

A       (Vai até a coxia) Mary, graças a Deus  você  chegou...

C       Eu vim o mais rápido possível...., você não acha melhor ir ao médico ?

         (Continuam o diálogo e encenação em segundo plano,  falando baixinho)

         (Escurece o palco, foco de lanterna no Franco)

F       (Tira a garrafa de pinga do saco e começa beber no gargalo)

         Bla, bla, bla, bla, bla (Mais uns goles) Bla, bla, bla, bla....besteira, eu prefiro falar com você minha  branquinha...

         (Entra no palco quando Francisco está abraçando e beijando Mary)

         (Cutuca as costas do Armando)

         Ó, se você estiver cansado, pode ir descansar um pouco... deixa que eu ensaio esta cena com ela...

A       A gente está tentando trabalhar Franco, pare de encher o saco...

C       Que bafo de pinga !

A       Você andou bebendo ?

F       (Enrolando um pouco a língua) Só uma geladinha que o patrão pagou. ...a idéia  foi dele.

C       (Alterada) Se você  não cair fora agora eu vou chamar o Duarte. Quer ver ?

F                 Pode chamar quem você quiser,  tô pouco ligando.(Volta prá coxia transparente)

C,A   (Recomeçam toda a cena a partir da campainha)

F       (Pega a garrafa e continua bebendo) Você eu posso agarrar a vontade que não fica fazendo escândalo que nem aquela jararaca. Deixa eu dar um beijinho na tua boca, deixa... (Bebe no gargalo) ...branquinha assanhada. Uéééé...  já acabou ?

M      (Entra na coxia transparente) Tá bebendo ?

F       Eu nunca bebo em serviço.

M      E esse cheiro de pinga !

F       Era um restinho que tinha na garrafa e caiu no chão, essa garrafa é prá por o kisuco.

M      (Atravessa o palco e entra na outra coxia, sem perturbar o ensaio)

F       (Falando com a garrafa) Quando eu te trouxe você já estava no fim, quase acabada.....   Você não tem uma irmãzinha escondida por aí, não ?

         (Entra na coxia verdadeira e volta 10 segundos depois para a transparente com uma garrafa de whisky) Irmãzinha estrangeira hem ? E não me dizia nada ! (Olhando para a garrafa do chão) Durval tem bom gosto (Lê o rótulo) Escocês... (Abre a garrafa, dá uma golada no gargalo e faz um bochecho e um gargarejo) Hummmm ! Nada como uma estranja !  Dá uma segunda golada. (Interrompido pela Mirna).

M      (Atenção na sincronia : Tem que entrar, retornando da outra coxia atravessar  o palco e surpreender Franco na segunda golada)

         Ahhhhh !!! Dessa vez te peguei ! (Tira a garrafa do Franco e entra na coxia verdadeira, enquanto fala)  ....se eu te pegar bebendo de novo vou contar pro Durval, e aí já viu .......érre   u   a    ....rua.

F       Droga !  (Pega a garrafa vazia do chão e conversa com ela) ...você não vai fazer nada ? Vai ficar aí parada ? (Pausa, abana a cabeça em desaprovação) ....sua covarde ! (Gritando) Raptaram a sua irmã....

C,A   (Interrompem o ensaio)

         (Acender luzes do palco, apagar foco do Franco)

C       Corre lá Armando, você ouviu ? Parece  que raptaram a irmã de alguém.

F       (Pega a garrafa pelo gargalo e ameaça quebrar) Se prepara, vai ser o seu fim.

A       (Encontra Franco com a garrafa levantada, pronto para quebrá-la) Franco ! O que houve ? O que você pretende fazer com essa garrafa ?

F       Garrafa ?

C       (Chegando) Já vi que está bêbado...

F       Qual ? Essa aqui ? .....(Com cara de desgostoso) .....vazia ? (Pausa) Nada ué !!!

A       Então porque você está segurando ela desse jeito ?

F       (Balançando a cabeça em desaprovação, atravessa o palco, parando no centro e olhando para os dois que o estão seguindo) ...vai me dizer agora que se eu coçar a minha bunda assim (Coça com as duas mãos) também vou ter que dar explicações ? ....vai cuidar da tua vida !

         (Começa mexer no cenário) ...agora me dão licença que eu tenho muita coisa prá fazer.

         (Quando os dois entram na coxia verdadeira)

         (Olha para a garrafa) Sua bunda mole, covarde. (Joga no cesto de lixo)

         (Apagar luzes)

         (Foco no Franco e na garrafa de whisky no lado oposto ao de Franco)

         (Franco cantando para a garrafa)

        

         Faz muito tempo que você partiu

         E a tristeza tomou o seu lugar

         Eu tentei não chorar

         E não acreditar na  despedida

         Essa noite não vou ter você

         Nem sentir seu sabor novamente

         Tenho que me agüentar

         Só me  resta tomar aguardente.

         Perdi você

         E foi tão de repente

         Cada vez que eu me lembro

         Sinto você tão presente

         Perdi você

         Foi ilusão

         Mas ainda bate forte

         O meu coração.

         (Chorando) Perdi você, perdi você. (Apagar tudo).

Cena 7

Personagens : Célia, Mirna, Franco, Armando, Duarte, Rose.

Cenário : Continuação, 5 copos de plástico, um vaso de flores.

Música : Nenhuma

Preparação : Todos na coxia transparente.

Efeitos : Acender foco branco no apresentador.

 

(Apresentador saindo da coxia, andando pelo palco)

 

Texto do apresentador :

                            É chegada a grande hora. Para os atores, simplesmente mais um trabalho, mais uma apresentação, mas para Durval, que começou a carreira como figurante, lutou contra adversidades até se tornar ator e muito mais para conseguir montar e dirigir um espetáculo. A sua primeira produção. ....se fracassar, com certeza será a última.

                            A peça “O drama de uma mulher” tem como foco principal os sentimentos e expectativas da mãe solteira; neste caso em particular, uma linda mulher, uma bailarina, que fica dividida em permitir o nascimento do bebê em detrimento das transformações que uma gravidez ocasionaria em seu corpo escultural.

                            Neste exato momento, Duarte vem buscar uma garrafa de vinho para quebrar o gelo dos atores, ...o  que ele desconhece, é que vai pegar exatamente aquela que Franco completou com conteúdo do copo, ou seja, óleo de rícino.

         (Apresentador sai de cena)

 

         (Foco no Duarte até voltar para a falsa coxia)

 

D       (Atravessando o palco) O Franco deve ter misturado o meu vinho com as outras garrafas.... (Acha a garrafa e leva até a coxia falsa)

        

         (Iluminação amarela no grupo)

 

C       (Chama o pessoal) Vejam ! Estão chegando. Aposto que teremos casa cheia.

D       (Entrega os copos para o pessoal e começa enchê-los) (Enquanto enche, deseja boa sorte a cada um deles..... ) Um brinde ao sucesso ! Vamos virar de uma vez só ! Quebrem a perna !

Todos         (Todos, menos Franco e Rose bebem numa só golada e fazem uma cara de nojo)

                            (Uns tossem, outros cospem, etc.)

D       Será que me enganei de garrafa ? (Olha para o rótulo)

A       Isso é vinho mesmo ?

C       Acho que vou vomitar.... (Vai até a coxia)

R       Ainda bem não tomei, detesto álcool.

F                 ( Afasta-se dos outros, joga o conteúdo do copo num vaso de flores  que murcham e fala)   Deve ter ficado muito aguado...

M      (Pega a garrafa, examina o rótulo) No mínimo é falsificado, que francês que nada, isso prá mim é vinho chileno e daqueles bem mixuruco.

         (Olha para a platéia)

         Gente ! ...casa cheia !

D       Vocês viram os bailarinos ?

R       Já estão em posição chefe.

D       (Dá uma olhada na plateia) Nossa !  ....Deus me ajude. Preparados ?

C,A   Manda vê patrão !

D       Vamos gente, agora é prá valer. Caprichem..... Franco, pode começar...

 

(Todos exceto Franco e Duarte, entram na coxia verdadeira)

 

F       (Coloca um disco na vitrola que está na coxia falsa)

        

 Efeitos : Luzes vermelha e verde, clima de boate.

 

(Inicia a música Mary, interpretada por todos)

 

É nesse compasso que dança Mary

Mary dança no compasso

É nesse compasso que dança Mary

Mary dança no compasso

 

(Entra Célia dançando)

 

É nesse compasso que dança Mary

Mary dança no compasso

É nesse compasso que dança Mary

Mary dança no compasso

 

(De 2 a 4 bailarinhos dirigem-se, cantando até o palco)

 

É nesse compasso que dança Mary

Mary dança no compasso

É nesse compasso que dança Mary

Mary dança no compasso

 

(Sobem no palco, e executam a coreografia)

 

É nesse compasso que dança Mary

Mary dança no compasso

É nesse compasso que dança Mary

Mary dança no compasso.

Vamos ver a Mary dançar

Vamos ver a Mary dançar

Vamos ver a Mary dançar

Vamos ver a Mary

 

(Um dos bailarinos)

 

Quando a Mary dança

O meu corpo todo arrepia  (Mary coloca a mão na barriga e faz cara feia)

 

(Outro bailarino)

 

Se a Mary balança

A tristeza vira alegria

 

(Todos)                                                C  (Desesperada de dor de barriga)

Mary mora, no coração da gente,   (Entra na coxia) Socorro, preciso ir ao banheiro...

                                                     D     Isso é hora ? Volta prá lá !

Mary mexe diferente,                     C      (Corre para o banheiro) Não dá !

Ela é toda alegria                           D     (Corre atrás) Tire a roupa, rápido....  Toma ! Veste !

Mary é nossa fantasia,                   R         Tá louco ?

Mary devora corações...                (Sai da coxia verdadeira para a falsa, colocando a roupa na Rose)

                                                     D    Franco ! Penumbra ! (Luzes em penumbra)

Vamos ver a Mary dançar              Esconde o rosto.(Empurra Rose  para o palco)

Vamos ver a Mary dançar              R    (Dança conforme a coreografia).

Vamos ver a Mary dançar

Vamos ver a Mary...

 

Mary mora,

No coração da gente,

Mary mexe diferente,

 Ela é toda alegria

Mary é nossa fantasia, 

Mary devora corações...

Vamos ver a Mary dançar

Vamos ver a Mary dançar  (Passa o Franco se esgueirando até a coxia oposta e volta apressado carregando

Vamos ver a Mary dançar   um rolo de papel higiênico com aproximadamente um metro de ponta solta)

Vamos ver a Mary...                   

 

É nesse compasso que dança Mary

Mary dança no compasso

(Os bailarinos entrando na coxia verdadeira e Rose atrás deles fica na falsa onde estão Duarte e Célia)

É nesse compasso que dança Mary

Mary dança no compasso

É nesse compasso que dança Mary

Mary dança no compasso

É nesse compasso que dança Mary

Mary dança no compasso.

 

C       Passa prá cá a roupa, rápido...

(Coloca a roupa)

(Penumbra e somente foco azul na mesa)

(Dirige-se à prateleira de onde apanha uma garrafa e um copo colocando-os sobre a  mesa; senta-se enche o copo e quando vai começar a beber, cheira o conteúdo do copo)

(Desconfiada, disfarça, vai com o copo na mão até a coxia falsa onde está Duarte)

        Eu não vou beber isso não !

D       Tá afim de me arrasar ?

         Volta prá lá e bebe essa merda de kisuco !

C       Tá com cheiro de vinho !

D       Franco, você não preparou o kisuco ?

F       (Fala para Célia) Tá no chão, encostado à prateleira.

C       (Volta à cena com o copo cheio na mão e coloca sobre a mesa)

         (Falando e agindo, como se fizesse parte do espetáculo)

         (Segura dissimulada a toalha da mesa e arrasta até cair tudo)

Oh !!! Enganchou no meu vestido ! Eu sou tão desastrada ! (Recolhe e coloca na lixeira)

         Pudera ! Do jeito que estou ! Como foi acontecer isso ?

(Agacha atrás da mesa e pega a garrafa de kisuco e um copo da prateleira)

(Toma um copo cheio de kisuco, logo enche outro e começa tomar)

         Eu sempre me cuidei.....

         (Toma o resto do kisuco que está no copo e enche outro)

         ....como isso pôde acontecer .....bem comigo.....

Laboratórios clandestinos, remédios falsos.... .....e eu é quem pago o pato...

(Chorando) ....grávida. Meu Deus do céu, grávida....  eu, toda certinha, na flor da juventude... ...aquele salafrário nunca vai querer assumir essa criança... ...se souber que estou grávida.... (pausa) Grávida, grávida, grávida detesto essa palavra....   (Alisa e olha a barriga) ...Tá tão murchinha, (Com dó) nem acredito que vai parecer que engoli uma melancia....  E meus seios, então, ...vou parecer uma vaca leiteira ambulante.(Chora escandalosamente) (Pausa) Ele não vai querer mais saber de mim.

A       (Entra em cena)

         Mary !!! O que houve, está chorando ?

         Porque você está no escuro ??? Vou acender as luzes.

C       Não !! Deixa apagada !!!

A       (Senta-se ao lado dela)

         Bebendo, Mary ?

C       E daí, não posso ?

A       Calma ! Foi só uma pergunta ! (Simula dor de barriga)

C       Pergunta besta !

A       (Levanta, pega um copo e volta a sentar. Quando vai se servir, Mary tira o copo dele)

C       Eu não me lembro de ter te convidado.

         (Joga o copo longe, pega a garrafa e fica abraçada nela)

A       Mary ! Você viu o que fez ? (Aperta a barriga e faz cara feia) Atirou o copo longe ! Qual o motivo de tanta estupidez ? Eu te fiz alguma coisa ?

C       Fez ! Fez muita coisa !

A       ....Mas o que é que eu fiz de errado ?

C       Fez muita coisa, já disse.

A       Mas o que ?

C       Acabou comigo, com a minha juventude, com tudo...

A       Eu fiz tudo isso ? ...não imagino como ?

         Você tá ficando doida ? (Fica prensando as pernas de dor)

C       Doida ? Doida ? Doida você vai ver se não parar de me encher o saco. Esperimenta abrir a boca, só mais uma vez e você vai ver a doida.

         Jogo esse vinho na tua cara e quebro a garrafa na tua cabeça...

A       (Levanta-se rápido, fica mais distante).

         Não sei o que está se passando com você.... é melhor se acalmar.... a gente se fala depois.... (Saindo) ...eu hem ! Eu não te fiz bosta nenhuma....

         .....mas vou fazer já ! (Entra correndo no banheiro)

D       (Desesperado) Põe as duas mãos na cabeça.

C       (Não percebe que Armando saiu de cena)

Ahhh ! Seu filho da puta... não mandei você calar o bico (Levanta e joga a garrafa)

         Uééé ! Cadê ele ? (Percebe o gafe e tenta consertar) .....covarde !!! Volte aqui se tiver coragem. (Age como  se estivesse com dor de barriga)

         (Volta para a mesa enche o copo)

         (Chorando) Bosta, ele teve coragem de chamar o filho dele de bosta....

         (Leva o copo até a boca, mas joga o conteúdo fora) Desse jeito vou embebedar meu filho.....   eu preciso me acalmar.....

F       (Correndo no meio do corredor da platéia, quando ia entrar pela platéia na coxia falsa)

C       Ei você !

F       (Assustado) Eu ?

C       É ! Você mesmo, vem cá.

         (Um em direção ao outro, ao se encontrarem ela pega o papel higiênico)

         (Faz cara de dor) Esse é meu.

(Volta para a mesa enche o copo)

         (Chorando e enxugando as lágrimas com o papel higiênico) Bosta, ele teve coragem de chamar o filho dele de bosta....

         (Leva o copo até a boca, mas joga o conteúdo fora) Desse jeito vou embebedar meu filho.....   eu preciso me acalmar.....

 

(Apagam as luzes, ela sai correndo para o banheiro)

 

C       (No banheiro) Abra essa porta !

M      Peraí tô terminando. (Resmungando) Esse vinho me fez mal.

D       (Vai ao banheiro) Saia daí Armando, é a minha vez.

F       (Só a voz) Toma o papel patrão.

D       Obrigado !

(Ruído de descarga)

(Iluminar coxia falsa)

F       (Com a garrafa de whisky)

R       (Vem da coxia verdadeira e surpreende Franco) ...de novo ? Dá isso aqui ! Vou jogar lá na rua.

         (As luzes acendem quando ela está no meio do palco)

         (Surpresa ! Com cara de tacho, segurando a garrafa pelo gargalo em frente ao público)

         (Finge-se de bêbada)

         Ick ! (Olhando para a coxia onde está Franco)

         Maldito bêbado !

(Toca a campainha)

A       Sai da outra coxia para atender. (Vê a Rose no meio do palco e age com naturalidade) Porque você não atendeu a porta ?

R       (Dá uma golada no whisky e senta-se no sofá de forma displicente) Não vê que eu estou ocupada.

A       Desse jeito vai acabar morrendo mais cedo. (Tira a garrafa e coloca na mesinha ao lado do sofá)

         (Atende a porta) (Ruídos, etc.)

R       (Vai até o canto do sofá pega a garrafa e continua bebendo, agora gostando já embriagada)

C       (Se admira com a Rose em cena) Eu vim o mais rápido possível...., você não acha melhor levá-la ao médico ?

A       (Corre e tenta tirar a garrafa dela, mas não consegue)

         Mãe ! (Olha prá Rose) Tá vendo a situação ? Eu acabei de tirar a garrafa dela ! (Tenta tirar de novo até que após alguns segundos consegue)

R       Filho desnaturado ! Está tirando a única alegria de sua mãe. Devolve isso !

C       Dona......., qual é  mesmo o nome da sua mãe ?

A       Rosalina.

C       Dona Rosalina, existem muitas coisas que podem dar alegria sem prejudicar a saúde.

R       A única coisa que eu gostava era furunfá mas o veio não tá furunfando mais. Comecei a beber depois disso.

C       É melhor levá-la ao médico, já pensou se ela desmaia? Aproveita que o carro está na porta, (Puxa ela pelo braço) vamos eu levo a senhora.

F       (Entra inesperadamente) Véia, tô te procurando faz meia hora. (Óia aquí ó, chama a atenção para a região pélvica).

R       Que é que você botô aí !

F       Não está reconhecendo ? É o falecido.... quer dizer ....o ressuscitado.

R       (Levanta cambaleando, saem abraçados e entram na coxia, ele com uma das mãos na bunda dela) Você voltou bimbolão ! Quase morri de saudades. 

A       (Falando baixinho) Misturei viagra na comida dele.

C       Nossa Francisco ! Desta vez você me assustou mesmo ! Passei dois sinais vermelhos, nem sei se fui multada por excesso de velocidade....

A       Não pensei que você se importasse tanto comigo... quer dizer, com a minha mãe.

C       O maior cego é aquele que não quer ver. Eu me importo com tudo relacionado a você.

A       (Abraça e beija Mary) Acho que estou me apaixonando....

         (Escorrega as mãos pelas costas até a bunda de Mary)

C       Pára com isso !

         Já ví que você não está doente coisíssima nenhuma !

A       Prá dizer a verdade, não estou mesmo.

C       Que safado ! Me fez vir correndo até aqui...

A       (Tapa a boca de Mary)

         Fiz, e daí, queria te ver. Você anda muito nervosa, me evitando, atirando coisas na minha cara, dizendo que eu fiz não sei o que !

         (Abraça Mary, beijando o pescoço e escorregando as mão das costas até as nádegas)

C       (Se afasta dele) Tira as mãos daí seu safado ! Você só quer se aproveitar de mim !

A       (Mesmo com a resistência de Mary, consegue abraçá-la)

         Aproveitar de você ? E você também não se aproveita de mim ?

C       ....mas é diferente, você é homem.....

A       Mulheres, vivem pregando igualdade mas fazem questão de vestir a camisa de vítimas indefesas...            ...quando ficam grávidas, então, minha nossa ! ...o culpado sempre é o homem ! ....esquecem que essas coisas são feitas a dois ....não se previnem, ....não tomam anticoncepcionais....

C       Eu tomei, seu estúpido. (Golpeia com os dois punhos o peito de F)

A       Calma, calma, eu não te fiz vir aqui prá brigar....

C       (Chorando) Eu não tenho culpa se esses laboratórios aprontam.

A       (Acaricia Mary) Fique calma meu anjo.... você está muito nervosa, não está falando coisa com coisa. (Segura os dois braços de Mary) Fique aqui, ...não saia daqui. (Coloca uma música na vitrola e canta dançando com Mary  “Tome uma colher de mim”).

 

Prá que tanto sofrimento

         Tome uma colher de mim

         A vida não é feita de lamentos

         Felicidade existe sim.

         Prá que tanto sofrimento

         Tome uma colher de mim

         A vida não é feita de lamentos

         Felicidade existe sim.

         Ondas do mar, o teu corpo ardente,

         É o sonho de qualquer homem carente.

         Olhar prá você, pro branco dos dentes,

         O teu desfilar me deixa contente.

         Eu quero ver você novamente

         Sorrindo feliz, vai ser um presente

         Eu tenho um remédio

E se chama amor,

         Basta um pouquinho acaba com qualquer dor...

         Tome uma colher de mim,

         Tome uma colher de mim,

         Tome sim....

         Tome uma colher,

         Só uma colher,

         Tome uma colher de mim....

         Tome uma colher de mim,

         Tome uma colher de mim,

         Tome sim....

         Tome uma colher,

         Só uma colher,

         Tome uma colher de mim....

 

         (Se beijam) (Continua a música só orquestrada)

 

C       Que lindo ! Não conhecia este seu lado.

         ........também....você vive me mostrando só o lado de baixo...

         Você me trata como se eu fosse um objeto.....

A       Objeto ! Você acaba de me lembrar de uma coisinha ! Vem cá. (Leva ela para sentar no sofá, pega uma caixinha que está sobre a mesinha ao lado do sofá)

         ....abra !

C       O que é isso ?

A       Abra, é um presentinho !

C       (Abre a caixa)

         Outra bijuteria ?

A       Não sabe a diferença entre um brilhante e um pedaço de vidro ?

C       É de verdade mesmo ?

A       E você acha que eu permitiria que a minha noiva usasse bijuterias ?

C       (Emocionada) Noiva, eu ?

A       E então, aceita ?

C       Não posso aceitar... (chorando)

A       Porque ? Você não gosta de mim ?

C       É claro que gosto, mas tem uma coisa que você desconhece e que se você soubesse... (Chorando)

         Joga o anel no sofá e corre para a porta...

A       Já vai embora ? (Pega um pacote que está sobre a mesinha) ...você esqueceu isso....

C       A minha bolsa está aqui, eu não esqueci nada...

A       Tem certeza ? (Tira o conteúdo do pacote e entrega para Mary)

         (Dois macacõezinhos, um azul e outro cor de rosa)

         Como eu não sei o que vai ser, comprei um de cada....

C       (Chorando e abraçando e beijando Francisco)

         (Gaguejando) Você sabia o tempo todo.......

A       (Colocando o anel no anular direito dela)

         Sua tolinha. Eu te amo...

 

         (Se beijam)

 

         (Apagar as luzes)

 

         (Entram todos no palco cantando e cada um dos atores e bailarinos dirigindo-se a apontando pessoas da platéia) (Efeitos luminosos).

         (Sincronizar para quando terminar a música sairem todos pelas portas de saída do teatro)

 

         Prá que tanto sofrimento

         Tome uma colher de mim

         A vida não é feita de lamentos

         Felicidade existe sim.

         Prá que tanto sofrimento

         Tome uma colher de mim

         A vida não é feita de lamentos

         Felicidade existe sim.

         Ondas do mar, o teu corpo ardente,

         É o sonho de qualquer homem carente.

         Olhar prá você, pro branco dos dentes,

         O teu desfilar me deixa contente.

         Eu quero ver você novamente

         Sorrindo feliz, vai ser um presente

         Eu tenho um remédio

         E se chama amor,

         Basta um pouquinho acaba com qualquer dor...

         Tome uma colher de mim,

         Tome uma colher de mim,

         Tome sim....

         Tome uma colher,

         Só uma colher,

         Tome uma colher de mim....

         Tome uma colher de mim,

         Tome uma colher de mim,

         Tome sim....

         Tome uma colher,

         Só uma colher,

         Tome uma colher de mim....

 

 

F I M